Um jovem de 16 anos da capital do Haiti, Port-au-Prince, contou recentemente à Human Rights Watch que se juntou ao grupo criminoso Village de Dieu aos 14 anos.
"Antes de entrar, vivia com a minha mãe... Era realmente difícil conseguir comida e roupas," afirmou. "Em casa, não havia comida. Mas quando estava com o grupo, eu conseguia comer."
Esta não é uma história isolada.
Desde 2021, esta nação caribenha mergulhou no caos, com os gangues a assumir o controlo da capital e de outros lugares, provocando escassez catastrófica de alimentos e medicamentos.
Por todo o Haiti, um grande número de crianças está a ser recrutada por gangues violentos que tomaram conta da capital, explorando os mais vulneráveis à medida que o estado entra em colapso.
"A pobreza, a quebra da ordem e a ausência de aplicação da lei são os principais fatores que contribuem para o recrutamento de crianças pelos gangues haitianos," afirma Amalendu Misra, Professor de Política Internacional na Universidade de Lancaster.
Segundo Misra, muitas crianças que ficaram órfãs devido ao conflito são frequentemente atraídas para os gangues, pois está a sua única maneira de escapar da fome.
"Uma vez que não há autoridade legítima para impedir o recrutamento de crianças para os gangues, estes atuam com impunidade," declara à TRT World. Os gangues criminosos muitas vezes abordam as crianças com promessas de comida, proteção e um sentimento de pertença.
Com opções limitadas, muitas crianças caem nas suas armadilhas. Estes grupos criminosos governam através do medo, envolvendo-se em sequestros, extorsões e guerras territoriais violentas. Sem um governo funcional para intervir, agora controlam quase 80% de Port-au-Prince.
Um Estado sem lei
A queda do Haiti na ilegalidade tem sido rápida e devastadora, especialmente após o assassinato do Presidente Jovenel Moïse em 2021. O vazio de poder deixado pela sua morte permitiu que os bandos assumissem o controlo de vastas zonas da capital.
Nestes territórios, a vida é ditada pela violência - raptos, extorsões e tiroteios são ocorrências quotidianas.
Para as crianças, os perigos são constantes e o estado tem-se revelado demasiado fraco para as proteger da escalada de violência.
Grupos de ajuda humanitária referem que a fome e a pobreza extrema estão a levar muitas famílias ao desespero, tornando-as vulneráveis à exploração por criminosos.
De acordo com o Programa Alimentar Mundial, mais de metade da população do Haiti sofre atualmente de insegurança alimentar aguda, sendo as crianças as que mais sofrem.
Nos bairros mais devastados pelos gangues, as famílias lutam para pôr comida na mesa, deixando as crianças desesperadas pela sobrevivência.
“Finalmente, numa luta pela sobrevivência, até os pais fecham os olhos ao facto de os filhos serem recrutados pelos gangues”, diz Misra.
Os especialistas observam que esta tendência se agravou significativamente nos últimos dois anos, com o agravamento da crise económica no Haiti.
Crianças de apenas 10 anos estão a ser coagidas a agir como vigias, a transportar armas e a participar em atos violentos. Para muitas delas, dizer “não” não é uma opção - a fome e a violência deixam-nas sem outra escolha.
Uma vez envolvidas, ficam presas num ciclo vicioso de exploração.
Violência sexual alarmante
A violência sexual também atingiu níveis alarmantes, intensificados pela influência generalizada dos gangues, num contexto de instabilidade política e agitação social.
Um relatório angustiante divulgado em março pelo gabinete dos direitos humanos da ONU descreveu a violência sexual no país como “gravemente subnotificada e em grande parte impune”, documentando numerosos casos de violação e relações sexuais forçadas envolvendo membros de gangues.
As mulheres e as meninas são vítimas de atos de violência horríveis, uma vez que os gangues exploram estas táticas para afirmar o controlo e incutir o terror nas comunidades.
Enquanto as meninas são forçadas à escravatura sexual e relegadas para tarefas domésticas como limpar e cozinhar nos seus “campos”, os rapazes são treinados para servirem de vigias e espiões, bem como de “guerreiros” da linha da frente contra a polícia, uma vez que têm menos probabilidades de serem visados pelos agentes da autoridade”, afirma Misra.
“As jovens, depois de terem sido violadas por vários membros de gangues, acabam por ficar grávidas ou são portadoras de doenças sexualmente transmissíveis. Quando se descobre que estão grávidas, as meninas são abandonadas e obrigadas a dedicar-se à prostituição”, explica.
As consequências desta violência vão muito para além dos danos físicos imediatos, infligindo marcas psicológicas profundas aos sobreviventes e desestabilizando ainda mais uma população já de si vulnerável.
A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) tem documentado graves problemas de saúde mental entre as crianças que são sujeitas a violência ou coagidas a cometê-la, sendo que muitas sofrem de perturbação de stress pós-traumático (PTSD), depressão e ansiedade.
No entanto, os serviços de saúde mental continuam a ser extremamente limitados, tornando quase impossível prestar cuidados adequados às crianças que vivem sob a ameaça constante de violência.
Sistema educativo em colapso
As escolas, há muito vistas como um refúgio, não foram poupadas ao caos. O já frágil sistema educativo do Haiti está agora à beira do colapso.
Nas áreas controladas por gangues, muitas escolas foram forçadas a fechar, enquanto os professores vivem no medo constante da violência e da extorsão.
O Ministério da Educação do Haiti informa que algumas escolas fecharam por tempo indeterminado, deixando milhares de crianças sem acesso à educação.
Sem escolas, as crianças perdem uma das poucas oportunidades que têm de escapar à pobreza.
Enquanto a ausência de educação está a aprofundar a crise, as crianças ficam ainda mais presas em condições que as tornam vulneráveis ao recrutamento por gangues.
“Muitos rapazes que vivem nestes ambientes violentos acabam por se tornar criminosos convictos”, afirma Misra.
Muitos deles acabam por perder a vida no meio do fogo cruzado entre gangues rivais e a polícia, diz ele.
Apesar do agravamento da crise, a comunidade internacional tem sido lenta a reagir.
Os especialistas alertam que, se o mundo continuar a fechar os olhos, os danos causados às crianças do Haiti serão irreversíveis.