O criador de jogos Sam Alfred tem plena consciência do desafio que enfrenta ao tentar criar um videojogo com a crise climática no seu cerne.
As listas de jogos mais vendidos estão repletas de títulos que promovem a destruição e a violência, em vez de um envolvimento construtivo com o meio ambiente.
No entanto, “Terra Nil”, um jogo de estratégia criado por Alfred e lançado em março do ano passado, coloca os jogadores no comando da reconstrução de ecossistemas - e desde então atraiu 300.000 jogadores, de acordo com a produtora Devolver Digital.
“Perdi a conta de quantas pessoas rejeitaram o jogo ou gozaram com dele, devido à sua natureza, porque é um jogo que não consiste em matar pessoas ou expansionismo desenfreado”, disse Alfred.
“O ambiente era o foco do jogo. O único ângulo era tentar mostrar aos jogadores, a outros criadores de jogos e às pessoas que é possível criar um jogo de estratégia sem prejudicar o ambiente”.
Fiel à sua palavra, o sul-africano de 30 anos pede aos jogadores de Terra Nil que ajudem a descontaminar zonas radioactivas, a plantar girassóis e a salvar a Grande Barreira de Corais, entre outras tarefas relacionadas com o clima.
Ele não é o primeiro criador a incluir uma mensagem ambiental nos seus jogos - nem é o primeiro a ser criticado por isso.
“Polarizado”
Em 2017, o “Cities: Skylines”, um jogo de construção de cidades, introduziu a sua versão "Green Cities", na qual os jogadores podiam criar a sua metrópole ideal tendo em conta a poluição e a gestão ambiental.
“Lembro que a extensão do Green Cities foi algo que surpreendentemente polarizou o público”, disse Mariina Hallikainen, Diretora administrativa da Colossal Order, o estúdio finlandês por trás do jogo.
“Na verdade, formou-se uma opinião de que estávamos a arruinar o jogo ao nos tornarmos políticos”.
A equipa por trás do jogo nega que tenha havido qualquer mensagem política explícita, destacando que os jogadores podem escolher se querem tornar a sua cidade verde ou não.
E outros estúdios não se sentiram desencorajados a incluir o clima nos seus jogos.
O pai de todos os jogos de estratégia, “Civilization”, incluiu a crise climática num desdobramento da sua sexta edição em 2019.
Com um número estimado de três mil milhões de pessoas que jogam videojogos pelo menos uma vez por ano, há muito tempo que os defensores do clima os consideram um público em potencial.
Até mesmo a Organização das Nações Unidas (ONU) tentou criar um jogo sobre o clima - “Mission 1.5” - que, segundo a organização, atingiu mais de seis milhões de pessoas.
"Superpotência"
Personalidades do setor uniram-se em vários colectivos para ver como podem incluir o clima em seus jogos.
Estúdios, associações comerciais e investidores formaram a “Playing for the Planet” (Jogar pelo Planeta), uma aliança apoiada pelas Nações Unidas que realiza uma “Green Game Jam” todos os anos desde 2020.
Outras personalidades do sector uniram-se para formar uma seção climática da Associação Internacional de Desenvolvedores de Jogos (IGDA) em 2019.
“Vocês têm um superpoder: são criadores de jogos”, disse Arnaud Fayolle, Diretor artístico da produtora Ubisoft e um dos principais responsáveis pelo ramo climático da IGDA, na sua conferência no ano passado.
“Vocês podem conversar com três mil mihões de jogadores em todo o planeta, que já confiam no que vocês têm a dizer, e podem ensinar problemas complexos de uma forma divertida e cativante que as escolas nunca conseguirão igualar”.
A filial da IGDA reúne cerca de 1.500 profissionais da indústria, professores universitários e especialistas em ecologia e clima, que partilham os seus conhecimentos para inserir os videojogos nas questões climáticas e encorajar os jogadores a se envolverem.
“A ideia é gerar um impacto cultural positivo por meio da estética, da narrativa, da mecânica de jogos e da tecnologia”, disse Fayolle.